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LITURGIA DA PALAVRA

PRIMEIRA LEITURA: Isaías 35,4-7ª

SALMO RESPONSORIAL: Salmo 145 (146)

SEGUNDA LEITURA: Tiago 2,1-5

SANTO EVANGELHO: Marcos 7,31-37

TEMA: DEUS QUER NOS VER VIVOS E FELIZES NESTE MUNDO RUMO À VIDA PLENA

A liturgia do 23.º Domingo do Tempo Comum fala-nos de um Deus eternamente comprometido com a vida e a felicidade dos seus filhos. Ele está presente em cada pedaço do caminho que a humanidade vai percorrendo, orientando os seus filhos e filhas, apontando-lhes a direção que leva à Vida plena, à felicidade sem ocaso.

Na primeira leitura, um profeta do tempo do Exílio na Babilónia garante aos exilados, desanimados, desiludidos e sem esperança, que Deus vai salvá-los e reconduzi-los à terra que tinham deixado para trás. Nas imagens dos cegos cujos olhos veem novamente a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria, o profeta representa essa Vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer ao seu Povo.

No Evangelho Jesus, cumprindo a promessa de Deus, abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo. Ele diz-nos, com esse gesto, que Deus não Se conforma quando vê o homem fechar-se no egoísmo e na autossuficiência, que só trazem sofrimento e infelicidade. Jesus propõe aos “surdos-mudos” que encontra, que abram o coração ao amor, partilha, à comunhão: esse é o caminho para o Homem novo, para o homem que vai em direção à Vida autêntica.

A segunda leitura dirige-se àqueles que acolheram a proposta de Jesus e se comprometeram a segui-l’O no caminho do amor. Convida-os a não desvalorizar ou discriminar qualquer irmão e a acolher com especial bondade os pequenos, os pobres e os frágeis.

Depois de quase quarenta anos de cativeiro, o Povo de Deus, exilado na Babilónia, está paralisado e desencantado.

Mostra-se abatido e incapaz de sair, por si só, da sua triste situação. Acha que Deus o abandonou e esqueceu. Não tem perspetivas de futuro e não vê razões para ter esperança.

Mas o profeta, em nome de Deus, dirige-se aos exilados e anuncia-lhes a iminência da libertação. Esse anúncio provoca uma explosão de alegria: a natureza e as pessoas exultam jubilosas porque o Senhor Se apresta para salvar Judá do cativeiro e para abrir uma estrada no deserto, a fim de que o seu Povo possa retornar em triunfo a Jerusalém.

Para uns, o nosso tempo é um tempo fascinante, cheio de realizações, de descobertas, de conquistas, que abrem aos seres humanos possibilidades infinitas.
Para outros, no entanto, o nosso tempo é um tempo assustador, marcado pelo sobreaquecimento do planeta, pela subida do nível do mar, pela destruição da camada do ozono, pela eliminação das florestas, pela poluição dos rios e mares, pelo espectro da fome e da miséria de biliões de seres humanos, pelas guerras cada vez mais violentas e destruidoras, pelo risco de holocausto nuclear… Para todos, é um tempo de desafios, de interpelações, de procura, de risco etc.

O profeta é o homem que rema contra a maré… Quando todos cruzam os braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte do sol poente, um amanhã novo. Ele vai então gritar aos quatro ventos a esperança, fazer com que o desespero se transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um mundo melhor.

Jesus acolheu e a todos amou igualmente, mesmo os pobres, os “últimos”, os marginalizados, os pecadores, os doentes. O mundo novo que Jesus propôs (o “Reino de Deus”) é um mundo onde todos têm lugar, sem exceção. Quem aderiu a Jesus Cristo e procura, com coerência, segui-l’O, tem de assumir os seus valores, os valores do Reino; por isso, não pode, no trato com as pessoas, deixar-se levar pelo favoritismo e a parcialidade, ou assumir qualquer tratamento discriminatório.

A comunidade cristã é hoje, no meio do mundo, o rosto vivo de Cristo; por isso, deve ser a “casa de família” onde todos os filhos de Deus, sem exceção, se sentem acolhidos, queridos e amados. Isto é, naturalmente, uma evidência que ninguém contesta… Mas, na prática, todos são acolhidos na nossa comunidade cristã com respeito e amor?

O encontro de Jesus com esse homem na maca e os gestos (alguns bem estranhos) que Jesus fez para o curar; mas Marcos, ao descrever-nos esse encontro, vai um pouco mais além e propõe-nos uma catequese sobre a missão que Jesus recebeu do Pai. Temos que perceber como é que Marcos entendeu a ação curadora de Jesus em favor daquele homem e os diversos gestos que a acompanharam.

“Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria” (Is 35,4-6). Jesus é efetivamente o Deus que veio ao encontro dos homens, a fim de os libertar das cadeias do egoísmo, do comodismo, da autossuficiência, dos preconceitos religiosos que impedem a relação, o diálogo, a comunhão com Deus e com os irmãos.

A “surdez” e a “mudez” que atacam os seres humanos não estavam no plano original de Deus para a humanidade. Deus criou o ser humano para a relação, para o diálogo, para a comunhão. A “surdez” e a “mudez” que nos paralisam e nos tornam infelizes não vêm de Deus, mas são consequência das escolhas erradas feitas pelo homem. Contudo, Deus nunca se conformou com essa opção que priva os seres humanos de Vida verdadeira.

Para nos curar da nossa “surdez” e da nossa “mudez”, enviou-nos o seu Filho, a sua “Palavra eterna”. Cumprindo a missão que o Pai Lhe entregou, Jesus convidou-nos insistentemente a superar o egoísmo, a autossuficiência, o isolamento, e a abrir o coração à comunhão, à partilha, ao amor (“effathá”, “abre-te”).

O “surdo-mudo”, incapaz de escutar a Palavra de Deus, pode perfeitamente representar aqueles homens e mulheres que vivem fechados aos projetos e aos desafios de Deus, que não têm espaço nem disponibilidade para Deus e para as suas propostas. Essa é, aliás, uma das “doenças” mais significativas do nosso tempo.

ORAÇÃO E COMPROMISSO PESSOAL NA IGREJA E NA SOCIEDADE

SENHOR, que eu aprenda o gesto de Jesus para manter sempre, no meio da ação, a referência a Deus.
Senhor quer ser um arauto de uma nova humanidade liberta do egoísmo e da autossuficiência.
Senhor, quero estar sempre conectado com Deus, em diálogo com Deus,
atento aos projetos e desafios de Deus, fortalecido pelo Espírito de Deus.
Que Deus seja a minha referência, a razão última de tudo aquilo que devo fazer.
Que eu encontre tempo para escutar e entender seus caminhos e projetos de Cristo. Amém.

Servo inútil,
Pe. Fonseca Kwiriwi, CP.