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Na semana das mães, de 05 a 12 de maio, comemoração que a meu ver é determinada pela linguagem comercial e não pela vontade humana e da sociedade, apresento esta breve reflexão sobre o ser pai e mãe no contexto africano, como abordagem na antropologia cultural africana.

 

A escolha do tema visa discutir o assunto na compreensão africana com o objetivo de esclarecer aos curiosos e amantes da África.

 

Porque pesquiso e vivo a alegria de ser pai, mesmo não sendo pai biológico, achei crucial partilhar a experiência de ser pai e mãe na cultura africana.

 

*1. Pai e mãe por laço de família alargada*

 

“Um dia fui visitar uma tia, irmã da minha mãe que acolheu-me sem nenhuma diferença dos seus filhos biológicos. A acolhida foi como tenho sido acolhido por minha mãe.

Na apresentação que fazia aos vizinhos, a tia dizia, orgulhosamente, que tinha “visita do seu filho”.

 

Aguardei outro

detalhe sobre a apresentação, não apareceu nada. Aliás, ficou enfatizado que eu era um dos filhos daquela que é na linguagem ocidental, minha tia.

Com vontade de explorar o tema, todavia, fiquei mudo para não estragar o dia e entrei na dinâmica batendo no peito de que eu era de fato o filho.

 

“Noutra ocasião, fui visitar um tio que para reforçar a solenidade do acolhimento convidou seus amigos que se prepararam para receber o filho daquela casa.

 

Com maior júbilo, o tio também apresentou-me como o filho, usando em Emakhuwa o termo “mwanaka”, meu filho, uma expressão que enfatiza pertença e não propriedade”.

 

A pergunta que poderia surgir seria, afinal, sou filho de quantos pais e quantas mães?

 

No entendimento do Ocidente, eu tenho um pai e uma mãe. Eis um empobrecimento da família na visão africana.

 

O ser pai ou filho em muitas etnias africanas, como o povo Makhuwa é abrir-se para toda família alargada e não ser uma simples propriedade de um casal (pai e mãe).

 

Eu sou filho de uma família alargada composta por pai, mãe, tio, tia, irmãos e primos.

 

A linguagem é sempre clara na convivência entre os membros de uma família, por exemplo, entre primos, só é “mano ou mana”.

 

Como diferenciar entre uma mãe biológica e uma irmã da sua mãe?

 

O termo é “mãe grande” ou “mãe pequena” , que significa, tia mais velha e tia mais nova, respectivamente. Essa suposta complicação de linguagem é só para quem não vive no meio do povo africano porque para evitar qualquer equívoco, o termo é só pai, mãe e irmão, irmã, independentemente de ser tio, tia e primo.

 

*2. Pai da família por honra*

 

Quando um adolescente e uma adolescente são submetidos aos ritos de passagem à vida adulta: circuncisão e ritos de iniciação, passam a ser o pai e a mãe de uma determinada família.

Ou seja, os pais passam a chamá-los de pai e mãe.

 

A troca de papéis não tira a responsabilidade dos pais biológicos, mas prepara os filhos e filhas para uma vida adulta em que serão pais de uma tribo ou de um clã.

 

Quando, por exemplo, um pai chama o próprio filho de pai, expressa admiração, amor, carinho e confiança nas decisões da família.

 

A responsabilidade de ser pai e ser mãe não é jogada para o adolescente ou a jovem, mas indica que aquela pessoa deixou de ser criança e deve aprender a respeitar os mais velhos.

 

O respeito inclusive é tão forte que ninguém vive chamando pelo nome, mas pelos termos que indicam a relação de familiaridade: pai e filho, mãe e filha, vice e versa.

 

Em algumas partes da África, o nome aparece depois do termo pai, tio e mano.

 

Escutamos no dia a dia os mais novos chamando os mais velhos de “mano Paulo” e não simplesmente Paulo como se fosse amigo íntimo.

 

Tenho tomado susto quando estou no Ocidente, porque escuto crianças chamando um idoso pelo próprio nome, ou mesmo de moço ou moça.

Enfim, Ocidente é ocidente e África é África. O mais importante é que cada um seja feliz e confortável com sua própria cultura.

 

O tema, portanto, de ser pai e mãe independentemente de ser do próprio sangue, na cultura africana é tão relevante que ninguém se sente excluído nem depressivo por não ter gerado ou por ter sido órfão.

 

A acolhida e o carinho que recebem os órfãos e viúvos torna o ambiente africano lugar feliz apesar da pobreza material. Por isso, a tristeza é sempre combatida por ações fraternas e afetivas.

 

Então, eu sou pai dos meus próprios pais e sobrinhos porque assim a filosofia africana decidiu que: *”eu sou porque somos”* enfatizando a questão da unidade, fraternidade, pertença e comunhão do povo africano.

 

*3. Pai afetivo e mãe afetiva*

 

Enquanto na África, uma pessoa bastante respeitada pela sua idoneidade e bondade na sociedade passam a ser pai e mãe, no Ocidente, há adoção de filhos.

 

Quando uma pessoa tem valor na sociedade africana, escuta todos chamando de pai e mãe automaticamente.

O laço afetivo torna muitas pessoas serem pais e ou mães de muitas filhos e filhas.

 

Certa vez, fui passear com amigos e no local onde nos hospedamos ouvimos uma criança a saudar o dono da casa: bom dia pai!

Perguntei, quantos filhos o dono da casa tinha. Ele respondeu que tinha muitos.

No desenvolvimento da conversa percebi que mesmo não tendo filhos biológicos, ele tinha muitos filhos afetivos e a realização era tão grande que não se sentia solitário.

 

Na cultura africana é considerada uma pessoa estéril quando endurece seu coração e se isola da comunidade.

 

Por isso podem chamar de morto vivo por causa da sua dureza de coração.

O viver com os outros torna toda comunidade fraterna e solidária.

Portanto, o ser pai e mãe é dom e não uma mera atribuição ou a decisão de alguém tornar-se pai ou mãe no casamento.

 

Eu sou pai em uma família alargada, pai dos meus pais e pai de filhos afetivos, realizando o projeto humano na filosofia africana.

 

Servo inútil,

 

Pe. Fonseca Kwiriwi, CP.