PRIMEIRA LEITURA: Números 11,25-29
SALMO RESPONSORIAL: Salmo 18 (19)
SEGUNDA LEITURA: Tiago 5,1-6
SANTO EVANGELHO: Marcos 9,38-43.45.47-48
TEMA: A COMUNIDADE DE JESUS É ESPAÇO PARA A CONSTRUÇÃO DO REINO DE DEUS POR MEIO DO AMOR E ACOLHIDA DE TODOS
A Palavra de Deus neste 26.º Domingo do Tempo Comum apresenta aos cristãos a proposta de escolher a sua opção e viver como autênticos discípulos de Jesus. Jesus pede aos discípulos que não se considerem donos exclusivos do bem e da verdade, mas sejam capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus através das pessoas de boa vontade que também são sinais vivos do amor de Deus no meio do mundo.
A primeira leitura convida-nos a reconhecer e a acolher a ação do Espírito de Deus no mundo e na vida dos homens, mesmo quando essa ação se concretize através de pessoas que nos parecem “improváveis”. O verdadeiro crente aceita sempre a iniciativa de Deus, seja como for que ela se apresente, e acolhe-a com um coração agradecido.
No Evangelho Jesus desafia os discípulos a porem de lado os interesses pessoais e de grupo e a viverem na lógica do Reino de Deus. Não deve ser uma comunidade fechada, sectária, intransigente, ciumenta, arrogante, e a acolherem de braços abertos todos aqueles que se dispõem a trabalhar por um mundo mais humano e mais livre; exorta-os também a não excluírem da dinâmica comunitária os pequenos e os pobres; pede-lhes, finalmente, que arranquem da própria vida todos os sentimentos e atitudes que são incompatíveis com a opção pelo Reino.
Na segunda leitura, Tiago denuncia a obsessão com os bens materiais que é fonte de injustiças e de sofrimento; e Deus nunca abençoará quem, por cobiça e ambição, explora e fere os seus irmãos.
A presença do Espírito de Deus nos anciãos manifesta-se na capacidade de profetizar. Contudo, o exercício profético destes “anciãos” se traduz com os seus gestos e palavras arrebatados, esses anciãos-profetas mostram ao Povo que Deus está ali; e isso é, para o Povo, garantia de que Deus continua interessado em Israel e a conduzir Israel.
O livro dos Números apresenta a imagem de um Povo que enfrenta as vicissitudes e crises do seu caminho histórico sob o olhar atento, solícito e cheio de amor do seu Deus. Israel caminha com Deus, guiado por Deus, alimentado por Deus, levado ao colo por Deus. Ora, o caminho do Povo de Deus não terminou com a chegada à Terra da Promessa, mas continua hoje, neste tempo histórico que nos toca viver.
O dom do Espírito a “setenta anciãos do Povo” que representam a totalidade do Povo de Deus. O Povo de Deus é um Povo que vive e caminha animado pelo Espírito. Portanto, o Espírito de Deus não é privilégio exclusivo de alguns, não está reservado aos membros da hierarquia, mas é um dom que Deus oferece a todos.
A exploração do pobre e a violência contra os humildes eram, na época, fenómenos demasiado frequentes e que os cristãos conheciam bem. Aparentemente, os “ricos” referidos nesta admoestação são pessoas de fora e não pessoas que fazem parte da comunidade cristã.
Tiago deixa o essencial: quem vive para os bens materiais e coloca neles o sentido da sua existência, dificilmente terá disponibilidade para acolher os dons de Deus e para acolher essa Vida plena que Deus quer oferecer aos homens. Por outro lado, Deus não tolera a exploração, a opressão do pobre; e quem conduzir a sua vida por caminhos de injustiça, não poderá fazer parte da família de Deus.
O problema não está nos bens em si, mas na forma como lidamos com eles. Para muitas pessoas, os bens tornam-se uma obsessão. Põem neles a sua segurança e a sua realização. Ter mais e mais é, para elas, o grande objetivo, o critério decisivo para definir o êxito da sua existência.
A ida para Jerusalém está próxima, mas os discípulos continuam a dar mostras de não terem interiorizado os valores do Reino.
Pouco antes Jesus tinha-lhes falado sobre os critérios que definem quem tem o primeiro lugar na comunidade do Reino (cf. Mc 9,33-34); e tinha-os convidado a viver de olhos voltados para os mais pequeninos, os mais débeis, os mais abandonados (cf. Mc 9,35-37).
Jesus ensina aos discípulos: “não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós” (vers. 39-40). A Jesus só o preocupa a libertação do homem de tudo aquilo que o desumaniza e lhe rouba a Vida. Quem luta pela justiça e faz obras em favor do homem, está do lado de Jesus e vive na dinâmica do Reino, mesmo que não esteja formalmente dentro de determinado grupo.
A cada momento encontramos pessoas de boa vontade que trabalham por um mundo mais justo e mais humano. Alguns deles são gente “improvável”, que não se identifica com nenhum grupo religioso, que não entra nas nossas igrejas, que não se revê na nossa moral católica, mas que, com generosidade e entrega, vai abrindo caminho ao Reino de Deus e à sua justiça.
Jesus não admite uma comunidade de discípulos fechada, exclusiva, apostada na defesa de interesses egoístas em detrimento do bem do ser humano, desconfiada em relação a tudo aquilo que está fora do espaço limitado em que o grupo se move, mais voltada para a proibição e a condenação do que para o acolhimento e a misericórdia, com tiques de autoritarismo e que se considera dona absoluta da verdade.
O verdadeiro discípulo de Jesus não vive acomodado e conformado, mas está sempre atento e vigilante, procurando detetar e eliminar da sua existência tudo aquilo que lhe impede o acesso à Vida plena. Naturalmente, a renúncia ao egoísmo, ao comodismo, ao orgulho, aos esquemas pessoais, à vontade de poder e de domínio, ao apelo do êxito, é um processo difícil e doloroso; mas é também um processo libertador e gerador de Vida nova.
O que é que precisamos de “cortar” da nossa vida, para nos identificarmos mais com Jesus e para merecermos integrar a comunidade do Reino?
ORAÇÃO E COMPROMISSO PESSOAL NA IGREJA E NA SOCIEDADE
SENHOR, abri meus ouvidos para escutar o apelo de Jesus
Ao meu coração para não escandalizar nem afastar da
comunidade do Reino os pequenos.
Que eu saiba lidar com os irmãos, enquanto membros da comunidade,
com os pobres, os humildes, as crianças, os mais vulneráveis,
aqueles que têm uma fé pouco consistente.
Senhor, que os irmãos descubram comigo, a alegria de integrar a comunidade de Jesus para a construção do Reino de Deus. Amém.
Servo inútil,
Pe. Fonseca Kwiriwi, CP.